Os brasileiros ficam mais pobres, e o Brasil se enfraquece ainda mais
Reportagem publicada pelo jornal Valor e reforçada pelo Estado em julho de 2025 expõe com clareza quem paga o custo das decisões erradas que o país insiste em tomar há décadas. E nada melhorou.
Em 45 anos, o Brasil regrediu da 48ª para a 87ª posição no ranking de PIB per capita em paridade de poder de compra (PPC) do Fundo Monetário Internacional (FMI), aproximando-se perigosamente da metade mais pobre do mundo.
Em termos absolutos, o indicador até cresceu no período – de US$ 13,7 mil em 1980 para US$ 19,6 mil em 2024. No entanto, o mundo avançou mais rapidamente. O resultado é uma perda consistente de posição relativa. Em poucas palavras: o Brasil cresceu menos que seus pares, enquanto o custo de vida da população aumentou acima da média internacional. Nesse contexto, políticas que ampliam a dependência de transferências sociais, sem enfrentar os problemas estruturais, acabam por aprofundar o empobrecimento de longo prazo.
E a tendência é de piora. O FMI já projeta que o país cairá ainda mais, alcançando a 89ª posição até 2030. Fatores adicionais, como a elevação dos preços do petróleo, tendem a aumentar a pressão sobre os custos de vida, afetando sobretudo a maioria da população. Não se trata de pessimismo infundado, mas da consequência direta de uma combinação conhecida: crescimento baixo, poupança insuficiente, investimento reduzido, produtividade estagnada, mão de obra desqualificada, inflação elevada e endividamento.
Sem mudanças estruturais, o país permanece em uma trajetória de baixo dinamismo econômico, cujos custos recaem principalmente sobre a população. A deterioração tende a se aprofundar, afastando o Brasil não apenas das economias desenvolvidas, mas também de outros países emergentes.
Os dados recentes confirmam essa tendência. Ao longo da última década, o indicador caiu até 2016, durante a recessão; recuperou-se lentamente até 2019; voltou a cair em 2020, com a pandemia; e, desde então, cresce de forma tímida. Em 2024, o PIB per capita em PPC foi de US$ 19.594 – praticamente o mesmo de 2013 (US$ 19.169). A diferença é que, naquela época, o Brasil ocupava a 79ª posição; hoje, está na 87ª.
O quadro é preocupante, mas não surpreendente. Há décadas se sabe que o crescimento econômico sustentável não se constrói com subsídios a setores ineficientes nem com a perpetuação de programas de assistência social, mas com o fortalecimento real da população – por meio de educação de qualidade, serviços públicos eficazes e melhores condições de renda para a maioria. Sem isso, e sem um combate sério e consistente à corrupção, qualquer investimento produtivo perde a capacidade de gerar valor duradouro para o país.
O excesso de gastos públicos pressiona a inflação, corrói o poder de compra da população e exige aumento da carga tributária, reduzindo a competitividade. Além disso, contribui para taxas de juros elevadas, que encarecem o crédito e dificultam investimentos. A baixa qualidade da educação, por sua vez, limita a qualificação da força de trabalho e amplia a dependência de brasileiros de políticas assistenciais e da importação de profissionais estrangeiros capacitados que tornam ainda maior o já elevado custo Brasil.
Em vez de promover reformas estruturais capazes de elevar o potencial de crescimento do Brasil e dos brasileiros, o país recorre a soluções imediatistas. Favorece setores próximos ao poder, impõe barreiras às importações, amplia a arrecadação, distorce o mercado de crédito com linhas direcionadas, utiliza estatais como instrumentos paralelos de política econômica e falha em avançar na educação básica e profissional
Enquanto isso, os três Poderes parecem acomodados a esse desempenho medíocre, ao mesmo tempo em que se dedicam a ampliar os rendimentos já elevados que recebem muitas vezes acima do teto constitucional. No Executivo, prevalece a lógica de programas voltados à popularidade de curto prazo. No Legislativo, a prioridade recai sobre a liberação de emendas. No Judiciário, persistem benefícios e pagamentos que ampliam distorções – muitas vezes com tratamento tributário diferenciado.
A população sente os efeitos no dia a dia: o dinheiro compra menos, as oportunidades são limitadas e a adaptação torna-se inevitável. Ainda assim, não há disposição efetiva, por parte dos Três Poderes, de rever privilégios e reorientar o país em direção a um futuro mais sustentável.
A posição do Brasil no ranking do FMI não é um acaso – é o resultado direto dessas escolhas.
