Ordem e Progresso para Quem? O Preço da Falha Estrutural nas Políticas Agrícolas e a Ilusão da Democracia no Campo
O caso de Eloísa Feiber, produtora de cebola que investiu tudo em sua lavoura e agora não consegue vender sua safra, revela a falha estrutural do Brasil em proteger quem produz e a necessidade urgente de políticas públicas consistentes para a agricultura familiar. Link para o video dela: https://www.instagram.com/reel/DS5PeWojsqB/?igsh=bmo1YmM1eTkzeTRw
A Eloísa não é uma exceção. Em todo o Brasil, pequenos produtores enfrentam uma série de adversidades, como falta de infraestrutura, acesso restrito a mercados e apoio insuficiente de políticas públicas. Esses desafios comprometem não apenas a produção, mas também a sustentabilidade das famílias que dependem da agricultura.
Veja mais casos semelhantes:
Importar mesmo prejundicando os produtores: https://www.instagram.com/reel/DRfkcosgRsA/?igsh=cG0wbmZyeXZybnNi
A dimensão continental do país e sua vasta disponibilidade de terras agricultáveis oferecem condições objetivas para que a agricultura familiar seja elevada a eixo estratégico de desenvolvimento social e econômico. O caso da produtora de cebola que investiu tudo o que tinha na lavoura, obteve boa produtividade, mas viu o preço despencar devido à saturação do mercado, revela uma falha estrutural.
O Brasil já demonstrou capacidade de organizar cadeias produtivas quando há articulação política e institucional – basta observar o papel da Embrapa na modernização do agronegócio ou a influência da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional. O grande produtor consolidou representação, acesso a crédito estruturado, infraestrutura logística e apoio técnico especializado. Agora o estado não pode mais deixar os pequenos produtores expostos ao canibalismo do grande Agro nacional e ao interesse de grande empresas, multinacionais do agro.
O setor bancário tem sofrido com um forte aumento da inadimplência no agronegócio nos últimos meses. Mesmo sem problemas de safra – as projeções mais recentes indicam produção recorde de milho e alta expressiva na colheita de soja em 2025 – uma série de dificuldades têm contribuído para este cenário, como relata em uma matéria o o Globo Rural do dia 18.08.2025 >>>
O pequeno produtor, resilientemente, permanece dependente de políticas fragmentadas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), que, embora relevante, não garante proteção suficiente contra oscilações bruscas de mercado.
É nesse cenário que o caso de Eloísa se torna paradigmático. Ela fez exatamente o que o Brasil precisa: produziu com eficiência, assumiu riscos financeiros significativos e alcançou uma safra de qualidade. Ainda assim, a saturação do mercado levou os preços a níveis inviáveis; ela sequer conseguiu vender sua produção, comprometendo gravemente sua sustentabilidade econômica. Não se tratou de erro produtivo – tratou-se de uma ausência de mecanismos eficazes de proteção e regulação para o pequeno agricultor.
Quando um pequeno agricultor quebra após uma safra bem-sucedida, o país falhou na política produtiva. E, paradoxalmente, poderá ter que ampará-lo depois por meio da política assistencial. Ou seja, a ausência de proteção à produção acaba ampliando a dependência de programas de transferência de renda.
Uma política produtiva consistente – com garantia efetiva de preço mínimo, compras públicas em momentos de excesso de oferta, formação de estoques reguladores e apoio logístico regional – reduziria a vulnerabilidade e, a médio prazo, a própria pressão sobre programas assistenciais.
A questão central não é opor assistência social à política produtiva. Ambas têm lugar em um Estado social responsável. O ponto crítico é que, em um país com a dimensão e a vocação agrícola do Brasil, a política produtiva deveria anteceder e reduzir a necessidade da política compensatória.
O caso de Eloísa simboliza milhares de pequenos produtores que sustentam a base alimentar do país sem dispor da mesma rede de proteção concedida aos grandes. Respeitar o pequeno agricultor significa oferecer previsibilidade, segurança institucional e instrumentos de estabilização de renda.
Valorizar quem produz não é retórica, é estratégia de desenvolvimento nacional
Valorizar quem produz não é apenas retórica, é uma estratégia essencial para o desenvolvimento nacional. Ignorar a importância dos pequenos produtores e das comunidades rurais é postergar um modelo de crescimento mais justo e sustentável. O fortalecimento da agricultura familiar, a garantia de direitos e o apoio a essas comunidades não são gestos de boa vontade, mas medidas indispensáveis para a construção de uma economia inclusiva, que atenda a todos, não apenas aos grandes interesses do agronegócio.
O Brasil é um país vasto, com espaço suficiente para o agronegócio de todos os tamanhos expandir sem precisar expulsar indígenas, comunidades quilombolas e outros produtores rurais que já estão estabelecidos em suas terras há décadas. Não podemos ignorar a história do presente. Nas décadas de 70 e 80, o Estado brasileiro, sob o lema da „Ordem e Progresso“, gerou consequências devastadoras para a vida dessas famílias que escolheram a dura vida no campo para sobreviverem.
„A economia vai bem, mas o povo vai mal“ é outra frase famosa do período, dita pelo então presidente militar Emílio Garrastazu Médici, que governou entre 1969 e 1974, durante grande parte do „milagre econômico“
As gerações que sobreviveram, muitas vezes em condições de extrema vulnerabilidade, agora enfrentam as cicatrizes dessa história. Enquanto milhões de famílias rurais amargavam os impactos de políticas falhas e desconexas dos três poderes, um seleto grupo de privilegiados, escolhidos a dedo pelo poder político, usufruía de benefícios cada vez mais amplos, como as pensões vitalícias de parentes de militares, consolidando um sistema que perpetuava a desigualdade.
O que se viu nessas décadas foi a consolidação de uma aristocracia burocrática. Enquanto o cidadão comum era forçado a “apertar o cinto” para pagar a dívida externa e combater a hiperinflação, os ocupantes do topo da pirâmide estatal – sob um regime que se dizia democrático – criaram um sistema de castas em que o risco econômico nunca os atingia. Muitas dessas famílias da massa popular, empurradas para a margem pela exclusão social, buscaram refúgio no campo, passando a fazer parte da grande massa de pequenos produtores rurais.
E as gerações que sobreviveram aos pésssimos resultados do trabalho dessas castas que ocuparam os três poderes desse Estado, negligente e cruel, hoje enfrentam a violência do mesmo Estado contra suas próprias terras, suas raízes e seu sustento. O maltrato a essas comunidades não é apenas um reflexo do descaso, mas uma continuidade das políticas excludentes que, desde então, têm servido aos interesses de uma minoria no poder. Essas políticas continuam a beneficiar poucos, enquanto a esmagadora maioria da população segue sendo vítima da desigualdade e da violência institucional, sem acesso a direitos fundamentais e sem o reconhecimento da sua dignidade como cidadãos.
Esse cenário revela a perpetuação de um sistema que se reconstrói a cada ciclo de poder, ignorando a necessidade urgente de justiça social e do fortalecimento de um modelo de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo.
A injustiça social no campo não é algo do passado; ela continua a se reproduzir, com as consequências dessa história ainda pesando sobre aqueles que nunca tiveram acesso à verdadeira justiça e aos direitos fundamentais.
