Lula, Alemanha e o Retorno da Moral Seletiva
Lula foi entrevistado pela emissora estatal alemã ARD, mas os temas que de fato expõem a degradação do Brasil foram simplesmente ignorados. Nada sobre a corrupção que atinge até a Suprema Corte, nada sobre o enfraquecimento das instituições democráticas, nada sobre os direitos humanos no Brasil, nada sobre a violência urbana, nada sobre a devastação da Amazônia. Todos esses assuntos eram obsessão da emissora quando Bolsonaro governava. Agora, sob Lula, desapareceram da pauta. Isso escancara uma seletividade vergonhosa. Com Lula no poder, a ARD já não demonstra qualquer real preocupação com o verdadeiro desmantelamento da democracia brasileira.
O interesse do momento é outro: atacar os Estados Unidos, ainda que para isso seja útil instrumentalizar Lula. Os alemães estão contrariados com os EUA porque os americanos já não se comportam como parceiros obedientes do bloco do G7. E, como Lula entrou em rota de confronto com Trump, a Alemanha aproveita esse ativismo para transmitir, de forma indireta, a mensagem de que até o Brasil rejeita Trump. Trata-se de um oportunismo descarado. A Alemanha, sozinha, não tem coragem de enfrentar os Estados Unidos de modo direto; então se vale de atores convenientes para fazê-lo por tabela.
Lula, por sua vez, aprecia esse papel. Gosta de ser aplaudido, bajulado e elevado pelos grandes centros de poder. E agora que Estados Unidos e Israel apoiam seu inimigo político, Bolsonaro, ele intensifica seu ativismo em território alemão, oferecendo-se com entusiasmo a esse jogo de conveniências. Sua postura não revela grandeza, mas vaidade política e disposição para servir a interesses que não são sempre os do Brasil. Nenhum Chanceler alemão jamais iria se comportar como Lula, os alemães defendem a terra deles com tudo o que possuem, até mesmo coma cultura do Volkstum. A Alemanha tem que ser grande a todo custo, mesmo no país de seus parceiros de negócios.
O que mais chama atenção nessa reportagem é ver a Alemanha repetir, sem constrangimento, a mesma lógica que marcou sua atuação durante a ditadura militar brasileira: interesse econômico acima de qualquer escrúpulo moral. Naquela época, o que importava era o lucro obtido no Brasil com o amparo dos militares. Hoje, a lógica parece a mesma, apenas revestida por um discurso mais sofisticado.
Quando esteve alinhada aos Estados Unidos, a Alemanha participou da espionagem contra o Brasil por mais de vinte anos, no maior projeto de espionagem de sua história: a Operação Rubikon. Ao mesmo tempo em que explorava o Brasil de múltiplas formas e ajudava a aprofundar o sofrimento da população, a Volkswagen cooperava com a polícia que torturava trabalhadores brasileiros. A VW chegou ao extremo de contratar um ex-nazista para fazer o trabalho sujo de espionar seus próprios funcionários no Brasil e entregá-los à repressão policial. E, no mesmo período, a Alemanha ainda fechou seu maior acordo industrial do pós-guerra em termos desfavoráveis ao Brasil. A Siemens esteve envolvida tanto no projeto de espionagem quanto no projeto industrial-nuclear.
Diante disso, causa espanto que Lula tenha escolhido visitar justamente a Volkswagen. A Alemanha possui no Brasil o seu maior parque industrial fora do território alemão, mas ele preferiu dar visibilidade exatamente à empresa que carrega esse passado sombrio. Isso não é um gesto inocente nem trivial. É um símbolo. E, como símbolo, diz muito sobre o tipo de aliança política e econômica que está sendo cultivada: uma aliança fundada não na dignidade do povo brasileiro, mas na conveniência das elites, no cinismo diplomático e na velha lógica de exploração travestida de parceria.
