A Guerra de Canudos (1896 – 1897)
O poder mal intencionado contra a população que sofria a consequência do trabalho desse poder.
- Na fase final do conflito, quando os campezinos näao se deixavam vencer pelo mesmo Estado que os colocou naquela situação, o Estado mobilizou inclusive artilharia pesada, como canhões alemães Krupp, evidenciando o uso de força militar moderna contra uma população majoritariamente civil, armada com instrumentos de trabalhar o campo, mal alimentada, mal vestida, completamente vulnerável.
- Canudos foi um massacre de grandes proporções, marcado pela destruição quase total de uma população civil pelo Estado.
A Guerra de Canudos: origem, conflito e massacre
A Guerra de Canudos (1896–1897) teve origem nas condições extremas de pobreza, abandono estatal e desigualdade no sertão nordestino. Enquanto o governo investia em políticas de incentivo à imigração européia – financiando a vinda de imigrantes, distribuindo terras e oferecendo recursos para o cultivo – o Nordeste, região que outrora teve papel central na economia e sustentação do Brasil imperial, permanecia marcado pelo abandono, pela seca e pela ausência de políticas públicas efetivas.
O abandono do Nordeste se deu por transformações econômicas e políticas ao longo do século XIX. A região, que havia sido central durante o período colonial e no início do Brasil Império, perdeu importância relativa com o deslocamento do eixo econômico para o Sudeste, impulsionado pela expansão do café. Ao mesmo tempo, o Nordeste foi palco de diversas resistências e movimentos políticos – como a Confederação do Equador (1824)* e outras revoltas regionais – que evidenciavam tensões com o poder central. O Ceará, por exemplo, destacou-se ao abolir a escravidão já em 1884, antes mesmo da Lei Áurea. Esse histórico de tensões políticas, somado à perda de centralidade econômica, contribuiu para a redução de investimentos na região, que passou a enfrentar condições crescentes de pobreza e permaneceu marcada por crises como a seca, agravando suas condições sociais
*) A Confederação do Equador foi uma revolta ocorrida em 1824, principalmente no Nordeste do Brasil (com destaque para Pernambuco), contra o governo central do imperador Dom Pedro I.
Liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos – muitos ex-escravizados, trabalhadores pobres e marginalizados – reuniram-se em Canudos em busca de sobrevivência, proteção e organização comunitária. A comunidade rejeitava impostos, a autoridade republicana e certas mudanças impostas pelo novo regime, o que gerou forte desconfiança por parte do governo.
É importante destacar que Canudos surgiu como resposta à exclusão social histórica. Ainda durante a monarquia, antes de 1889, movimentos populares e revoltas regionais já eram duramente reprimidos. No entanto, o conflito de Canudos ocorreu sob a República, que herdou e deu continuidade a práticas de repressão contra populações consideradas ameaças à ordem.
A imprensa da época, especialmente jornais como O Paiz e a Gazeta de Notícias, teve papel central na construção de uma imagem de Canudos como ameaça política, divulgando textos atribuídos a Antônio Conselheiro cuja autenticidade é questionada. Outros jornais também contribuíram para a difusão dessa narrativa.
O governo republicano focou em Canudos como um foco de resistência política e possível restauração monárquica, o que levou a uma reação militar intensa. Foram enviadas quatro expedições; após derrotas iniciais, a ofensiva final mobilizou cerca de 8 a 10 mil soldados.
A destruição de Canudos foi completa. Estima-se que entre 20 e 30 mil habitantes viviam na comunidade, e que cerca de 15 a 25 mil pessoas morreram, a maioria civis. O massacre final incluiu mulheres, crianças e idosos, evidenciando a brutalidade da repressão estatal.
Canudos revelou um Estado que, em vez de proteger, voltou-se contra sua própria população, impondo violência sobre aqueles que já viviam sob as consequências de sua negligência.
Canudos revela algo fundamental:
A República nasceu prometendo ordem e progresso, mas manteve – e, em muitos casos, aprofundou – práticas de exclusão e violência contra as camadas mais pobres da população. O Nordeste foi historicamente marginalizado, enquanto o Sul e o Sudeste, beneficiados por políticas de incentivo à imigração européia e por maior concentração de investimentos fomentados pelo governo central, passaram por processos mais acelerados de desenvolvimento. Tudo aquilo que era genuinamente brasileiro era considerado de má qualidade e de baixo valor para investimento – o Nordeste é o berço do Brasil.
A política de embranquecimento (europeização do Brasil) refletiu a política de “modernizar” o Brasil à custa da exclusão social, privilegiando a imigração européia enquanto marginalizava a população negra, brasileira e de índios após 1888.
A europeização do Brasil foi vista como solução para elevar o nível econômico e social do país a patamares europeus, altamente valorizados pelo imperador e suas elites, que posteriormente o depuseram e fundaram a República, prometendo aquilo que nunca efetivamente desejaram para o Brasil: a ordem e o progresso para todos os brasileiros. Esse desequilíbrio regional fez com que o Nordeste permanecesse por décadas marcado pela pobreza, pela seca e pela insuficiência de políticas públicas, recebendo maior atenção do Estado apenas ao longo do século XX.
Conclusão
Canudos não foi apenas uma rebelião, mas a expressão de um Brasil marginalizado que buscava alternativas diante da ausência do Estado. Sua destruição, marcada por um massacre em larga escala, simboliza a incapacidade – ou recusa – do poder central em compreender e integrar essas populações. O episódio expõe uma continuidade histórica: o Brasil de hoje ainda sofre dos mesmos males daquela época. A exclusão se manifesta por meio da falta de empoderamento econômico e profissional da maior parte da população brasileira, enquanto as elites – ligadas aos mesmos centros de poder desde o início do século XX, responsáveis pela repressão de Canudos – legislam frequentemente em causa própria, por vezes em tensão com os princípios estabelecidos na Constituição Federal.
Foto: Fotos de Canudos de autoria de Flavio de Barros, o único fotógrafo que acompanhou o exército. Museu da República.






Desde Canudos, observa-se na história brasileira a recorrência de ciclos de contestação coletiva diante de um sistema frequentemente percebido como excludente, desigual ou incapaz de responder às demandas sociais. Em diferentes momentos, essa dinâmica assumiu formas diversas: na Revolta da Vacina (1904), como reação popular às imposições autoritárias do Estado; na Revolta da Chibata (1910), como denúncia de abusos e desigualdades dentro das próprias instituições; na Guerra do Contestado (1912–1916), marcada pela exclusão social e pelos conflitos fundiários; nas greves operárias do início do século XX, que expressaram a resistência dos trabalhadores frente à exploração; nas mobilizações pelas Diretas Já (1983–1984), que pressionaram pela redemocratização; nos protestos pelo impeachment de Fernando Collor (1992), impulsionados por denúncias de corrupção; e nas Jornadas de Junho de 2013, que evidenciaram a insatisfação generalizada com os serviços públicos e a representação política. Em contrapartida, episódios como os de 8 de janeiro de 2023 revelam outra face da crise de legitimidade institucional: não a reivindicação de inclusão política, mas a contestação da própria ordem democrática, respondida pelo Estado com forte coercitividade.