A República proclamada pelas elites, com exclusão do povo e suas continuidades
A República brasileira nasceu sem o povo – e essa ausência ajuda a explicar muitas de suas continuidades até hoje.
Ação

A Proclamação da República em 1889 não resultou de mobilização popular, mas de uma ação rápida conduzida por militares e setores das elites políticas. Parte dessas elites estava insatisfeita com os rumos do Império, especialmente após a abolição da escravidão em 1888, que ocorreu sem indenização aos proprietários. Nesse contexto, a ideia republicana foi mobilizada como base política para legitimar a ruptura com a monarquia e a instauração de um novo regime liderado por esses grupos.
Legitimação
A nova ordem republicana foi associada ao ideal de “Ordem e Progresso”, inspirado no positivismo, que prometia estabilidade, modernização e avanço para o país. Esse discurso ajudou a construir uma expectativa de melhoria, especialmente entre setores urbanos e letrados, e contribuiu para a legitimação inicial do novo regime. No entanto, tratava-se mais de uma promessa projetada pelas elites do que de uma transformação imediata da realidade social. Para a maior parte da população, excluída das decisões políticas, essa ideia de progresso permaneceu distante, mais como um ideal abstrato do que como uma experiência concreta.
Exclusão
A maioria da população, excluída da participação política e com acesso limitado à informação, não esperava tal mudança. Quando o regime foi proclamado, o fato já estava consumado: para grande parte dos brasileiros, a República surgiu sem aviso, compreensão ou possibilidade de intervenção. A notícia circulou principalmente pelos jornais e pelo boca a boca, mas de forma desigual, fazendo com que muitos só compreendessem a mudança dias ou semanas depois, à medida que seus efeitos se tornavam visíveis no cotidiano.
Essas características – origem elitista, promessa de ordem e progresso e exclusão da maioria da população – marcaram profundamente a formação da República brasileira e ajudam a compreender seu desenvolvimento ao longo do tempo.
1889: ordem para quem, progresso para quem?
A República não nasceu de um movimento popular amplo, mas de uma ação conduzida por militares liderados por Deodoro da Fonseca. Como observou Aristides Lobo, a população assistiu “bestializada”, refletindo a exclusão política da maior parte da sociedade brasileira naquele período.
Naquele contexto, o Brasil havia abolido a escravidão apenas um ano antes; a maioria da população era analfabeta e excluída do voto; e o poder político permanecia concentrado nas elites agrárias. Os ocupantes das estruturas de poder provinham majoritariamente dessas elites, vivendo em condições distantes da realidade da população comum.
Nesse cenário, a “ordem” significava sobretudo controle social, enquanto o “progresso” beneficiava principalmente os grupos dominantes.
A construção da democracia ao longo do século XX
Ao longo do século XX, o Brasil alternou entre períodos autoritários, como o Estado Novo e a Ditadura Militar, e avanços institucionais. A Constituição de 1988 ampliou direitos, consolidou o voto universal e fortaleceu a separação entre os poderes, embora não tenha eliminado as desigualdades estruturais.
A democracia contemporânea: crise e desgaste
Nas últimas décadas, o país vive uma democracia formal tensionada por escândalos de corrupção, polarização política, desconfiança nas instituições e desigualdade persistente. Eventos como os ataques de 8 de janeiro de 2023 evidenciam fragilidades institucionais e sociais.
Os Três Poderes: ontem e hoje
Em 1889, o poder era restrito, pouco transparente e distante da população. Hoje, embora existam mecanismos democráticos e maior participação, persiste a percepção de elitização, privilégios institucionais e distanciamento entre governantes e governados.
Conclusão: a promessa não cumprida
A ordem construída desde a origem da República foi marcada pela exclusão do povo. Mais do que integrar a sociedade, ela serviu, em grande medida, à manutenção dos interesses das elites políticas e institucionais. Ao longo do tempo, consolidou-se uma estrutura em que os centros de poder frequentemente operam com relativa autonomia em relação às necessidades da população, reproduzindo privilégios e desigualdades.
Essa trajetória ajuda a explicar a persistência de um país em que avanços institucionais convivem com limitações profundas. O Brasil ampliou direitos e participação, mas ainda enfrenta dificuldades em transformar seu potencial em desenvolvimento amplamente distribuído. A dependência econômica de exportações primárias, a fragilidade de setores industriais e os desafios na valorização do capital humano refletem escolhas históricas que nem sempre priorizaram a inclusão e o fortalecimento da sociedade como um todo.
Assim, a promessa de “Ordem e Progresso” permanece incompleta. A questão que se impõe não é apenas institucional, mas estrutural: se a ordem continuará a reproduzir privilégios ou se poderá, enfim, ser reconstruída como base para um progresso que alcance, de fato, toda a população.
Ao longo de mais de um século, o Brasil avançou, mas de forma desigual e mais lenta do que outras nações que passaram por transformações profundas em períodos relativamente curtos. Países como os Estados Unidos e a China, apesar de suas próprias contradições históricas – incluindo guerras, conflitos internos e mudanças radicais de regime – conseguiram promover processos mais acelerados de industrialização, organização estatal e desenvolvimento econômico. No caso brasileiro, embora sem rupturas estruturais tão intensas quanto as observadas nesses países, persistem obstáculos históricos – como práticas recorrentes de corrupção, desigualdade estrutural e fragilidades institucionais – que dificultam a transformação do potencial nacional em progresso amplamente distribuído.
Mais de um século depois, a República mudou em suas formas, mas ainda carrega marcas de sua origem – revelando que o maior desafio do Brasil não é apenas avançar, mas romper com as continuidades que limitam seu próprio progresso.